segunda-feira, 3 de julho de 2006

Crime no Palácio de São Bento - Capítulo V

Resumo dos episódios anteriores
Dois cadáveres são encontrados no gabinete do Primeiro-Ministro do Palácio de São Bento. O Inspector Serôdio encontra-se no local do crime com o Primeiro-Ministro e o mordomo do Palácio.
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-Bom – disse o mordomo – aquela jovem ali morta é a nossa Zulmira, a empregada da limpeza.
-E aquele – disse o Primeiro-Ministro – é o Andrei, o nosso motorista brasileiro.
- Brasileiro? O Primeiro-Ministro português tem, quero dizer, tinha, um motorista brasileiro? Mas a que...? – inquiriu, estupefacto, o Inspector Serôdio.
- É uma longa história – respondeu-lhe o Primeiro-Ministro.
- Vai ter de ma contar depois. Primeiro, agora que os vestígios estão frescos, há que averiguar da existência de pistas.
O Inspector aproximou-se do cadáver da jovem Zulmira. À primeira vista, nada de anormal sobressaía do cadáver. Nenhuma marca de violência, quer física, quer sexual. Tinha alguma curiosidade em assistir à autópsia para verificar qual havia sido a causa de morte daquela jovem tão bela, mas morta em pleno desabrochar (bem, por acaso esse aspecto não dava para verificar ali, à frente daqueles dois) pelo menos da vida adulta.
Aproximou-se então do cadáver do motorista brasileiro. Teve, subitamente, uma sensação de “deja vu”. Aquilo que o sujeito tinha, completamente coberto por todo o corpo parecia… só podia ser… muco vaginal! Tal e qual o cadáver que havia sido encontrado algumas horas antes no Parque Eduardo VII. Não existiam coincidências daquelas.
Perante o olhar surpreendido do Primeiro-Ministro e do mordomo, tornou a inclinar-se sobre as pernas desnudadas do cadáver de Zulmira. “Nada de muco”, pensou, “logo, não foi daqui. Mas de onde…?”.
- Peço desculpa, senhor Inspector, mas os cadáveres, passe a redundância, já se encontram mortos. Importava-se que eu mexesse no cofre, para verificarmos o que se passou com o que estava no seu interior? – perguntou o Primeiro-Ministro.
O Inspector voltou-se e verificou que a porta do cofre estava aberta. Rapidamente abeirou-se do mesmo e verificou o seu interior.
- Senhor Inspector, se não se importar, eu mesmo verifico se está tudo – disse o Primeiro-Ministro aproximando-se do cofre e praticamente empurrando o inspector para o lado.
- Só se V. Ex.ª apenas ali tinha umas revistas algo, como é que hei-de dizer isto, especializadas no seu interior…
- Quais revistas?
- Aquelas ali – disse o Inspector apontando para duas revistas, onde sobressaíam as fotografias dos D´Zrt na sua capa, ostentando ambas o título de “Morangos com Açúcar”.
O Primeiro-Ministro olhou atónito para o interior do cofre. – Eu nunca tive tais revistas neste local! Aliás, nunca as vi na vida!
- Saiba V. Ex.ª que o senhor Primeiro-Ministro está a falar verdade – disse o mordomo, ao mesmo tempo que pensava que deveria ser a primeira vez que aquele Primeiro-Ministro falava a verdade – encontravam-se aí outras revistas, mas nada com esse teor pouco digno do cargo que o senhor Primeiro-Ministro ocupa.
- Muito bem. E algum dos senhores possui alguma teoria quanto à substância que se encontra a cobrir o cadáver do motorista?
- Bom, ele gostava de se cobrir de óleo de cedro quando… bom, quero dizer, ouvi-o dizer que gostava de se cobrir de óleo de cedro quando mantinha relações sexuais com outras pessoas. Tornava-o mais escorregadio, dizia ele – disse o Primeiro-Ministro, perante o olhar inquiridor do Inspector e o olhar distraído do mordomo, que entretanto virara-se para a janela quando o Primeiro-Ministro começara a falar em óleo de cedro.
- Mas o senhor discutia com o seu motorista questões de ordem sexual? – perguntou, curioso, o Inspector.
- Sabe como é, estes brasileiros não se conseguem calar, mesmo quando estão a lidar com altas instâncias de outros países – foi a resposta atrapalhada do Primeiro-Ministro.
- Boa tarde. Posso entrar? – perguntou um sujeito de cabelo grisalho e óculos, com uma mala na mão, espreitando à entrada do gabinete.
- Dr. Campos, como está? – disse o Inspector com aprazível satisfação. -O que o traz por cá? Ia justamente ligar-lhe. Temos dois cadáveres para serem examinados. Mas o que o traz mesmo por cá?
- Bom, estava eu numa manifestação aqui à porta do Palácio para protestar contra o encerramento do bloco de autópsias do Hospital da Cova de Moura, devo confessar que ainda não percebi a lenga-lenga da falta de condições, quando me apercebi do seu carro estacionado lá fora e decidi entrar para vir ter consigo e cumprimentá-lo. Curiosamente, a porta de entrada estava aberta e, como ninguém respondeu aos meus apelos, decidi entrar e ver se encontrava alguém. Sabia o amigo que estão dois Ministros a discutirem lá embaixo que não ligaram nada ao que eu lhes perguntei?
- A porta de entrada estava aberta? – inquiriu, espantado, o Primeiro-Ministro, voltando-se para o mordomo.
- Saiba V. Ex.ª que fechei a porta após a entrada do senhor Inspector. E sou peremptório no que digo – disse o mordomo.
- Logo se vê isso – disse o Inspector. Dr. Campos, já que aqui está, fazia-me o favor de examinar os cadáveres para posteriormente compararmos impressões?
(Cont)

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