segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Os triângulos e as bolinhas

Algo que está a começar seriamente a irritar-me são os triângulos e as bolinhas que passaram a aparecer durante os programas da SIC e da TVI (ainda não vi na RTP).
Demonstra não só a falta de critério etário dos dois canais, como anda a pôr os miúdos em bolandas.
De facto, verifica-se que a partir do jornal da tarde, todos os programas são claramente para maiores de 12 anos de idade. O que fazer com os miúdos mais novos? Trancamo-los no sótão até à hora das refeições e de dormir, ou melhor, obrigam-nos a mudar para a TV Cabo e para o Disney ou o Panda?
Depois, e ainda me lembro da minha idade, o fruto proibido é sempre o mais apetecido. No meu tempo, proibido era ver o Império dos Sentidos: o pessoal esforçava-se por conseguir afastar os pais da televisão durante esse pequeno período temporal, inventando determinadas artimanhas que hoje já não são necessárias porque a maioria das crianças portuguesas tem um televisor, só para si, no seu quarto.
Com esta brincadeira das bolinhas e dos triângulos, para um miúdo de 9 anos até as novelas da noite da TVI passaram a ser proibidas (com excepção do Mundo Meu, aconselhável para maiores de 8 anos, que passa quase à meia-noite, hora em que, consabidamente, todos os miúdos com mais de 8 anos de idade estão obrigatoriamente acordados).
Ou seja, a visão do proibido e do não aconselhável tornou-se na norma em termos televisivos.
E depois ainda se admiram do cada vez maior desrespeito, pelos mais novos, das regras sociais.
Aliás, estou mesmo a ver uma escola primária deste país, em que o Ricardo, de 9 anos, chega ao pé do Tiago, na segunda-feira de manhã e diz-lhe "ena pá, não vais acreditar, mas eu vi o CSI no sábado na SIC", respondendo-lhe o Tiago, com idêntica idade, "isso não é nada, eu vi o "Ninguém como tu". O Ricardo olha para ele, estupefacto, "ganda maluco, e os teus pais não te disseram nada?", ao que o Tiago responde-lhe "que nada, tranquei a porta do meu quarto à chave para o caso de lá irem".
Além disso, ainda existem as confusões, nas quais a TVI parece estar a tornar-se perita. Sobretudo para quem, por acidente, como foi o meu caso, acompanhou o início de quase todos os programas da TVI na passada sexta-feira.
O Euromilhões apareceu com a indicação de um programa para todos. Eu até pensava que a idade para a prática de jogo tinha um determinado limite mínimo. Depois do sucedido, já tenho manifestações do pequeno herdeiro do título nobiliárquico lá em casa a reivindicar uma mesada semanal para gastar no Euromilhões e na Lotaria.
O Fiel ou Infiel apareceu inicialmente como um programa para maiores de 16 anos, indicação essa que foi rapidamente substituída pela normal bolinha vermelha. Mas a bolinha vermelha não era só para programas não aconselháveis a menores de 18 anos? Isso quer dizer que o pessoal com 16 anos já pode ver os filmes do canal 18?
Pior, isso quer dizer que o número 18 do canal nada tem a ver com a idade permitida para o ver?
Se assim é, lá se foi mais uma das poucas verdades adquiridas ao longo da minha vida televisiva.
O melhor de tudo é que os anúncios publicitários continuam sem indicação de escalão etário. O que significa que os miúdos de 5 anos de idade continuam a assistir despudoramente aos nus femininos nos anúncios dos iogurtes. E aos nus masculinos nos anúncios de perfumes. A inveja é uma coisa muito feia. E eu tenho-a relativamente aos miúdos de hoje. Nos meus tempos de infância não apareciam mulheres nuas nos anúncios. Apenas tínhamos direito aos pés descalços da Sónia Braga na Gabriela.
A coisa é ridícula. Não sei quem foi o moralista que teve esta ideia. Todos nós sabemos antecipadamente quem deve ver o quê na televisão. Não precisamos de indicadores de terceiros. E não vão ser umas bolinhas e uns triângulos que irão alterar a ordem das coisas. Por mim, o pequeno marquês vai continuar a poder ver o CSI na SIC à vontade.
É a vida.

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