quinta-feira, 1 de junho de 2006

Crime no Palácio de São Bento – Capítulo I

“O mordomo entrou no grande salão e, perante a grandiosa visão do Primeiro-Ministro, parou a sua marcha, inclinou-se e, em sublime exibição de nobreza de carácter, disse pausadamente:
- Senhor Primeiro-Ministro, lamento informar V. Ex.ª, mas o dinheiro destinado aos gastos da G.N.R. em Timor desapareceu.
- Desapareceu? Mas do que você está a falar, homem? Qual dinheiro?
- Como V. Ex.ª sabe, na sequência da sua, aliás muito sábia, decisão de enviar auxílio militar para Timor, foi disponibilizada uma determinada verba pelo Dr. Teixeira dos Santos.
- Sim, mas isso são verbas que nunca saem da Direcção-Geral do Tesouro. Circulam internamente, sabe?
- Pois, senhor, mas neste caso a verba saiu. Segundo o senhor Ministro das Finanças, não havia dinheiro em abstracto para a aventura militar e, por isso, teve que se recorrer a uma saída em dinheiro vivo da Caixa Geral de Depósitos.
- Isso eu não sabia. Como é que você sabe disso, homem?
- Eu sou o mordomo, Ex.ª, é meu dever saber tudo o que se passa nesta casa.
- Mas segundo depreendi, os factos que o senhor descreveu não ocorreram nesta casa.
- Peço desculpa por o desenganar, senhor, mas ocorreram. Não sabendo o que fazer com o dinheiro, o senhor Ministro das Finanças pediu a um dos seus ajudantes para trazê-lo para aqui e guardá-lo no cofre deste Palácio antes de falar com V. Ex.ª quanto ao destino seguinte a dar-lhe.
- ...?
- Saiba V. Ex.ª que o guardei no cofre do vosso gabinete pessoal, por razões de segurança.
- Mas o senhor sabe o segredo do cofre do meu gabinete?
- Eu sou o mordomo, Ex.ª, é meu dever saber tudo o que se passa nesta casa.
- Sim, o senhor já me disse isso. E então?
-Saiba V. Ex.ª que o dinheiro já não se encontra no cofre.
- Como assim?
- Desloquei-me há pouco ao gabinete de V. Ex.ª e o cofre tinha a porta aberta, encontrando-se completamente vazio por dentro com excepção daquelas revistas que...
- Sim, sim, sim, já percebi. Quanto dinheiro estava lá dentro?
- Quinhentos mil euros, senhor.
- Quanto???
- Quinhentos mil euros, senhor.
- Contou-os?
- Saiba V. Ex.ª que não.
- Então como sabe que era tal quantia?
- Eu sou o mordomo, Ex.ª, é meu dever saber tudo o que se passa nesta casa. E também porque o senhor Ministro das Finanças teve a gentileza de me informar antecipadamente que as “quinhentas mil mocas”, foi a expressão utilizada pelo senhor Ministro, senhor, estavam a caminho e deveriam ser convenientemente guardadas.
- Contou o sucedido a mais alguém?
- Não, senhor, estava à espera de V. Ex.ª para tomar uma decisão. Não sabia qual dos dois senhores Ministros Costa seria competente para a investigação.
- Eis uma boa questão. A qual deles irei telefonar?”
(Cont.)

1 comentário:

Bottled (em português, Botelho) disse...

Senhor Marquês,

Está hilariante... estou em pulgas (e a Argúcia Acutilante também, embora no caso dela seja com pulgas) para continuar a ler esta sua obra-prima.

Até lhe digo mais, no dia em que o prémio Nobel da Literatura se estender aos "blogues", V. Senhoria terá o meu voto "de caras", assim tipo, "au Portugal, douze puentes... to Portugal, tuelve pointes".

Saramago... tu cuida-te...
Dan Brown... tu agarra-te à cadeira...
Eça de Queiróz... tu está soosegado em teu túmulo!

Hic Hic Hurra