quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Os Três Reis Magos – Versão Aldeia Lusitana (uma história quase real)

Há muitos, muitos meses, um profeta de bata branca vaticinou que no final do mês de Dezembro do ano de 2006 iria nascer aquela que iria trazer a salvação ao nosso blogue. E eis que chegou o dia....
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Era um dia de frio.
Gelado, diríamos mesmo.
Encontrava-me no meu adorado solar de Nafarros a verificar as contas mensais e a pensar que, mais dia, menos dia, lá ia ter de pôr o meu fiel Jacinto a arrumar carros junto ao Palácio de Sintra para ver se amealhava mais uns cobres para pagar as próximas férias na Tailândia, quando me apercebi de que o Zé Porvinho entrara esbaforido pelo solar adentro.
- Ela já nasceu, ela já nasceu – exclamava o Zé.
- E estás a falar de...?
- Da nossa salvadora, da luz do blogue. A pequena Viralata já nasceu!
- Viriata, Zé. Já? Mas não era suposto ocorrer no dia 25? O que é feito da tradição? Como é que sabes, recebeste alguma comunicação do Além?
- Não, foi mesmo o Chefe que enviou a informação via SMS – respondeu o Zé.
Raios partam as novas tecnologias, pensei. Gostava mais da maneira como as coisas se faziam antigamente. Quando um salvador nascia, mandava-se uma estrela à casa do pessoal e era só o pessoal segui-la. Acabou-se. Só que hoje em dia já não existem estrelas com essa capacidade. Ainda pensara que a Soraia Chaves era capaz de ascender a tal estatuto, mas a miúda perdera-se em séries da SIC.
- Bom – disse – já avisaste o Inspector?
Nesse momento, entrou uma cadela disparada pelo solar adentro, derrubando várias cadeiras e só parando quando bateu com o focinho no móvel Luís XX que eu tinha escondido a um canto da casa para que os visitantes não se apercebessem da ***** que a senhora Marquesa adquirira num leilão na net.
- Bom dia, estimados colegas. – entrou bonacheirão o Inspector, fumando um dos seus cachimbos habituais – Estamos prontos para ir?
- Mas sabemos onde é? – perguntei-lhe.
Os demais abanaram a cabeça negativamente.
- Está visto. Alguém perguntou ao Chefe onde era?
Os demais continuaram a abanar a cabeça negativamente.
- Eu já lhe tentei ligar, mas uma voz feminina diz-me que ele não está disponível de momento – disse o Zé.
- Deixaste-lhe alguma mensagem no voice-mail?
- Voice-mail? Qual voice-mail? – continuou o Zé – Aquilo era mesmo uma gaja a dizer que o Chefe não podia atender! Ouvi uns barulhos muito esquisitos ao fundo, mas julgo que eram interferências da linha. A sujeita apenas me pediu desculpa e disse que tinha de desligar porque tinha de ir comer qualquer coisa e depois não percebi mais nada.
- Bom, lá vamos ter de fazer isto à maneira antiga. – disse – Alguém viu uma estrela lá fora?
- O sol conta? – perguntou o Zé.
- Não se preocupem com essas coisas que eu trouxe material do bom – disse o Inspector, apontando para o cachimbo.
- Ópio, haxixe ou liamba? – questionei-o.
- Meu caro, para encontrar o caminho para um salvador, só haxixe. Nós não precisamos de encontrar a luz, ela virá ter connosco.
- Tu lá sabes. – disse-lhe – Muito bem. E prendas? Trouxeram-nas?
- Eu vou dar-lhe uma garrafa de vinho. Para que possa saborear à nascença o doce odor da terra e das nossas castas lusitanas – disse o Zé.
- Eu vou dar-lhe um cachimbo. Para que possa sentir a luz da sabedoria e o fumo da inteligência atingi-la desde o início do seu caminho. E V.Ex.ª? – disse o Inspector.
- Eu vou dar-lhe terra.
- Terra?! Estamos a falar de um hectare do solar de Nafarros?
- Não, estamos a falar de um pedaço de terra que tenho aqui num vaso dentro deste saco de plástico, para que ela possa sentir-se dona de algo seu desde o início. – continuei. - E camelos, já temos?
O Inspector e o Zé apontaram-se reciprocamente.
- Deixem-se de parvoíces. Vocês sabem do que estou a falar. Carro? Popó? Rodinhas? Calhambeque? O meu está fora de questão uma vez que o Jacinto o deixou ontem de manhã na revisão. Zé?
- Não olhe para mim que eu não tenho carro. Saiba V. Ex.ª que desde que bati com todos os carros que tive e fiz todas as seguradoras do mercado pagarem indemnizações, tenho uma medida cautelar do Fundo de Garantia Automóvel a proibir-me a aproximação de um volante de um carro.
- Não há problema, vamos no meu calhambeque – disse o Inspector.
Saímos então para a rua, na direcção do calhambeque do Inspector. E que calhambeque!
Estão a ver o jeep da Volvo, que custa cerca de 60 mil euros? Não tinha nada a ver. Este era um “carocha”, nitidamente à imagem da antiga RDA. Aliás, aquilo só poderia ter sido produzido na antiga RDA.
Olhei boquiaberto para o Inspector quando ele me entregou as chaves do carocha.
- Bom – explicou – como é bom de ver, o Zé está etilizado demais para conduzir (ouviram-se ruidosos protestos do Zé alegando que apenas tinha bebido duas garrafas de tinto desde que acordara há cerca de meia hora), enquanto eu vou estar demasiado ocupado a tentar procurar a luz – apontou para o cachimbo. – A Argúcia sabe conduzir, mas não trouxe as andas para que ela possa chegar aos pedais. Por isso...
Lá entrámos. Eu no lugar do condutor, o Inspector no lugar do pendura, a Argúcia na sua cadeirinha do banco traseiro, e o Zé, ao lado da Argúcia, firmemente agarrado a uma caixa que nitidamente ostentava doze gargalos apontados na direcção do tecto.
- Vamos para Belém? – perguntei.
- Qual quê – respondeu-me o Inspector – a maternidade de Belém deve ter sido fechada pelo Ministro da Saúde. Vamos fazer o seguinte. V. Ex.ª coloca-nos na estrada em direcção a Espanha, que eu trato de ver se consigo ver uma luz que nos ilumine o caminho.
E começou a fumar. E o Zé a beber. E a Argúcia a lamber-se na genitália. E lá fomos.
Após alguns minutos de aquecimento do cachimbo, o Inspector começou a ver aquilo a que ele chamava a luz. Vi-me subitamente na estrada que levava a Elvas.
Passavam já cerca de duas horas de viagem, quando senti um apertão no pescoço, provocado pelas mãos do Zé.
- Temos de parar, temos de parar, já não aguento mais! – disse o Zé, em tom esbaforido.
Parei o carro e olhei para trás para ver o que se passava.
- Não há mais vinho! O que vou fazer à minha vida? – continuava o Zé.
- Mas não trazia consigo uma caixa cheia de garrafas?
- E trago. Mas antes tinham vinho. Agora já não têm! O que é que eu faço?
Olhei para o Inspector. Aquilo não prometia nada de bom. O Zé sem emborcar vinho durante cinco minutos era mais ou menos como o nosso Primeiro-Ministro sem falar ao telemóvel durante igual período temporal (aliás, a conta de ambos os vícios deviam ser semelhantes no final de cada mês, com a diferença de que nós pagamos o vício do Zé, entenda-se Sócrates e não Porvinho).
Decidimos ir em busca de uma taberna. Ainda mal tinha percorrido uma distância de dois ou três quilómetros quando, voilá, uma taberna.
Parei o carro à frente do estabelecimento, tendo o Zé saído em passo de corrida. Fui atrás dele, tendo o Inspector continuado no carro a verificar a presença da luz, ficando a Argúcia a vigiar o carro e o Inspector.
O que se seguiu foi inaudito.
- Vegetariana?! Como vegetariana?! – gritava o Zé.
- Meu caro senhor – explicava um sujeito com sotaque holandês por trás de um balcão – esta é efectivamente uma taberna vegetariana.
- O tinto não é carne! Como é que não têm vinho tinto?
- Qualquer vinho vem das uvas, que por seu lado vem das videiras, que nascem da terra, onde foi incorporado adubo de estrume animal, o qual saiu, como o nome diz, dos animais, pelo que saiu da carne, e é carne, meu caro senhor!
- Eu não acredito nisto, eu não acredito nisto - dizia o Zé. – E cerveja? A bojeca não vem das uvas!
- Pois, mas a cerveja é feita com centeio, que vem do solo, que foi fertilizado com adubo de estrume animal, o qual saiu, como o nome diz, dos animais, pelo que saiu da carne, e é carne, meu caro senhor – disse o sujeito pachorrentamente.
- Este bife está a gozar comigo. Só pode! Então afinal o que se bebe numa taberna vegetariana?
- Água.
- Aaarghhh!! Veneno!! – disse o Zé, correndo para fora do estabelecimento e desatando a vomitar junto ao carro.
- Ok, vamos embora – disse-lhe.
Escusado será de dizer que nos dez minutos seguintes o Zé, enquanto seguíamos caminho, começou a delirar, apregoando as virtudes do branco e do tinto na saúde de um comensal, o que lhe sucedia habitualmente quando estava mais de meia hora sem tocar em bebidas (entenda-se com elevado grau de teor alcoólico).
Virei- me para o Inspector.
- O que fazemos com ele?
- Penso que tenho uma solução. É só uma questão de...
- A LUZ, A LUZ! –desatou a gritar o Zé.
- Mas ele também vê a luz? – perguntei ao Inspector, enquanto olhava para trás. – A falta de bebida tem nele o mesmo efeito do consumo de haxixe?
- Não sei, mas...
- A LUZ, A LUZ!! – continuou o Zé, apontando para a frente.
E foi então que vi um daqueles camiões pesados na faixa de rodagem errada (mais precisamente na minha), a fazer sinais de luzes para me desviar.
Travão a fundo, desvio para a direita e paragem fora da via.
Olhámos uns para os outros e verificámos que ainda estávamos inteiros. Apenas a Argúcia, que não tinha cinto de segurança, fora parar, com a travagem, em cima da cabeça do Inspector.
- Dizia eu – referiu o Inspector enquanto abria a porta e saía do carro com a Argúcia, levando uma das garrafas vazias do Zé – que tinha solução para o problema.
E continuou o seu caminho, desaparecendo atrás das árvores, e regressando cerca de cinco minutos mais tarde com a garrafa cheia de um líquido branco, que entregou ao Zé.
- Qué isso? – perguntou o Zé com ar desconfiado.
- Cerveja do mais fino recorte, extraída da mais pura seiva natural. Olhe para a brancura da espuma e para as borbulhas do líquido – disse o Inspector.
Meio a medo, o Zé meteu os lábios no gargalo da garrafa e emborcou um pouco do líquido na boca. Saboreou e, satisfeito, meteu o gargalo definitivamente à boca e emborcou tudo. Em seguida, arrotou e caiu adormecido no banco traseiro.
Entretanto, a Argúcia regressou, com um ar nitidamente feliz.
- Uma vez que a cerveja não cai do céu, talvez queira o senhor Inspector explicar-me o súbito aparecimento desta em plena mata.
- Meu caro Marquês, existem certos segredos que convém manter secretos.
- Estou a ver. Muco vaginal de cadela?
- Sim.
- E sabe bem?
- Se V. Ex.ª quiser experimentar...
- Passo, obrigado. O que me surpreende é o senhor Inspector conhecer as qualidades de sabor do muco vaginal de cadela.
- Não ultrapassa as qualidades do muco vaginal de elefante.
- Desculpe?
- Está desculpado. O muco vaginal de elefante possui um forte sabor natural, capaz de ombrear com as melhores cervejas do planeta. Ainda me lembro da primeira vez que tentámos a coisa, eu e o meu primo Superboque Gomes. Primeiro, tivemos que meter um tronco de palmeira na vagina da elefante, em movimento basculante, para gerar o muco vaginal e...
- Superboque Gomes? Você tem um primo chamado Superboque Gomes? – olhei incrédulo para o Inspector.
- Longa história. A minha tia gostava muito das histórias de Sherlock Holmes e queria meter esse nome no meu primo. Infelizmente, o conservador do Registo Civil, que até era o pai do nosso Zé, achou que o miúdo não podia ter um nome anglófono, e por isso aportuguesou-o o mais possível.
- Sim, mas Superboque?!
- O pai do Zé, grande apreciador de cerveja, disse que era o nome português que existia mais próximo de Sherlock e a minha tia acreditou.
Prosseguimos o nosso caminho. Algumas horas depois, o Inspector disse-me para começarmos a abrandar a nossa marcha. Estávamos perto, disse, uma vez que a luz tinha começado a baixar. Não estaria ele a fazer confusão com o pôr-do-sol, que tinha começado no sentido contrário àquele em que seguíamos? E foi então que nos acercámos da zona de Badajoz.
- Pessoal – disse o Zé, que entretanto acordara – acho que estamos perto. Já vejo as vacas do presépio.
Olhei para todos os lados, mas apenas vi umas senhoras, junto à berma da estrada, a andar de um lado para o outro.
- E olhó burro – exclamou o Zé – enquanto um homem que vinha numa mota parou num local e se colocou em amena conversa com uma daquelas senhoras. – Só falta o pastor e as ovelhas.
- Esses não estão cá. O pastor foi subsidiado pela União Europeia para acabar com a exploração. Por isso, as ovelhas foram todas abatidas e hoje o pastor é um operário fabril desempregado algures no litoral – retorquiu o Inspector.
- E então? – perguntei-lhe – Estamos perto?
De repente, o telemóvel do Inspector tocou.
Era o Chefe. Estava à nossa espera em Lisboa, junto a Belém. Olhei para o Inspector.
- Os caminhos do homem para o seu destino são, por vezes, ínvios e tecidos por fios muito longos – foi a sua única resposta.
Moral da história:
Se José e os três reis magos tivessem, cada um deles, um telemóvel em vez de haxixe, o pessoal não tinha que ter andado perdido durante quase doze dias para dar umas míseras prendas a um puto (pese embora este último fosse o salvador da humanidade de um ponto de vista religioso)!
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Epílogo:
A entrega das ofertas não correu como previsto.
A garrafa de vinho do Zé obviamente que não sobreviveu ao regresso de Badajoz do próprio.
O cachimbo do Inspector havia sido utilizado para a recolha de “cerveja” para o Zé, pelo que ainda apresentava alguns vestígios de líquido no momento da sua entrega, não tendo passado pelo crivo bacteriológico do Chefe.
E o meu vaso, perguntam? O meu vaso partiu-se no momento em que dei com o mesmo na cabeça do Inspector em Badajoz, após ter descoberto que a pequena Viralata, perdão, Viriata, estava em Belém (Olissoponensis Portugalis) e não em Badajoz.

4 comentários:

Bottled (em português, Botelho) disse...

Senhor Marquês,

Os meus parabéns.

Isto vai calar todos aqueles que afirmam que nós não sabemos contar histórias de Natal aqui no blog!

E, já agora, além de subsidiarem o telemóvel do outro Zé, não haveria aí uma hipótese de, tendo em atenção que eu também tenho um vício algo dispendioso...

Hic Hic Hurra

Inspector Serôdio, José Serôdio disse...

Nobilíssimo Marquês,

Está agora explicada a Vossa prolongada ausência bloguística: andava em profundo e rebuscado processo criativo.

Só esperemos que tão eloquente e extenso conto não lhe tenha esgotado a veia postística.

Bottled (em português, Botelho) disse...

Ao que eu acrescentaria:

Nem o muco!!!!

Hic Hic Hurra

ENGº. Viriato disse...

Marquês da minha ialma,
Bravo! Fartei-me de rir. Quando queres és levado da breca e consegues meter o blog a girar mais rápido que o costume. Bom inicio de 2007, pá. Continua!