(continuação)
Já se esqueceram do trajecto do nosso impagável Inspector Serôdio, por mim traçado ao longo dos anos neste blog, em posts anteriores?
Não faz mal, não tem importância... procurem com perseverança e acharão, algures nos meses passados, os meus outros posts sobre este personagem cuja vida devassamos assim, para que todos possam dar o devido reconhecimento aos seus méritos.
Acabada a Faculdade, o nosso Inspector decide desde logo abrir escritório num lugar chique de Lisboa, o Martim-Moniz, entalado entre dois prédios prestes a ruir.
Inicialmente só, de pronto o nosso Inspector, com faro para estas coisas da investigação, decide colocar um anúncio nas caixas de biscoito para cães de uma conhecida marca nacional a solicitar um companheiro para o auxiliar em seus futuros casos (sabida que é, para quem esteve atento, a sua natural alergia a gatos).
Foi, pois, natural, que logo no dia seguinte tivesse dado entrada, naquele vão de escada, uma cadela de nobre porte, chamada Argúcia Acutilante, que ía em resposta ao anúncio.
E foi logo ali, naquele vão de escada, que o Inspector lhe tirou as medidas. Desconhecendo nós o teor do sucedido, o certo é que aquela cadela de um raio deve tê-lo convencido e bem, porque não só foi contratada, como por várias vezes a apanhei, em visitas surpresa de cortesia, deitada no sofá do escritório do Inspector a fumar um cigarrinho enquanto este, estranhamente, se encontrava sempre com qualquer problema intestinal, metido na casa-de-banho.
Foi já com a sua companheira de sempre que o nosso Inspector teve acesso ao seu primeiro caso profissional.
Lady Saint-George, a quem pertencia a propriedade do Castelo com o mesmo nome, veio queixar-se-lhe do desaparecimento súbito do seu adorado gatinho, o "Bichano", o que criou um enorme problema de consciência no nosso Inspector, dividido entre o júbilo da possibilidade de resolver o seu primeiro caso e assim ganhar o seu primeiro dinheiro de forma legal e o facto de ter de ir procurar um gato.
Mas a necessidade aguça o engenho e as contas têm de ser pagas, pelo que o nosso Inspector lá aceitou o caso e dirigiu-se à residência de Lady Saint-George em acção de investigação, sempre com o cuidado de enviar à frente a sua Argúcia Acutilante (afinal, como bem pensava para com os seus botões, nada como uma cadela para descobrir um gato).
Uma vez lá chegado, era hora do almoço e pairava no ar um cheiro forte a guisado. Sentado à mesa, analisando nasalmente o hálito de Lady Saint-George, e após uma observação preliminar dos pedaços de coelho que nadavam no molho da travessa, o nosso Inspector tem uma iluminação divina e deduz, brilhantemente, que se encontrava perante um dos equívocos do novo cozinheiro chinês da casa, o que fez com que este fosse tranquilamente pendurado pelo pescoço numa árvore do jardim, a bem dizer, assim a modos de recompensa pelos serviços prestados.
E foi assim que uma inconsolável Lady, que de uma só vez ficara sem gato e sem cozinheiro, teve de desembolsar uma avultada quantia pelos serviços prestados, mas não sem ficar extremamente grata ao nosso Inspector e reconhecer os seus méritos.
Como na alta sociedade estes acontecimentos voam rapidamente de boca-em-boca nos eventos sociais, dias mais tarde bate à porta do nosso Inspector o Conde de White-Chattel, que, com seus modos únicos e não sem apreciar de alto a baixo o porte do Inspector, ali se vinha queixar do desaparecimento de sua bengala preferida, que tanta falta lhe fazia dado ser multi-usos. O facto era que nem a sua Bettyzita nem a criadagem eram capazes de a encontrar.
Nesse momento, o nosso Inspector reparou num quase imperceptível bocado de poeira situado na bota esquerda do Conde.
Depois de ter analisado a bota com uma verdadeira lupa que comprara com os proveitos resultantes da resolução do seu primeiro caso, descobriu que a poeira era oriunda da Serra de Sintra, local onde tinha tido lugar um programa televisivo de cariz social e militar, o que fez com que o Conde se recordasse que a tinha deixado encostado ao seu cacifo, quando teve de se vir embora.
Muito agradecido pela lembrança, e após ter tentado por várias vezes beijar o nosso Inspector, o Conde lá lhe pagou os honorários e saíu, levemente chateado por aquele não ter feito um desconto com pagamento em géneros.
Duas semanas depois, eis que Lady Saint-George volta a pedir o auxílio do Inspector para que este descobrisse o paradeiro do seu fiel mordomo, que desaparecera sem deixar rasto.
Após constatar, interrogando o pessoal serviçal, que o dito mordomo já servia a casa Saint-George desde que nascera, e que tal sucedera haviam já passado 98 anos, guiado pela sua natural intuição e pelo faro da sua Argúcia Acutilante, o nosso Inspector descobriu e mandou abrir uma sepultura que se encontrava junto da capela.
Orgulhoso, verificou que o mordomo ali se encontrava, repousando, feliz e tranquilo, coisa que nunca conseguira em vida devido ao mau génio da patroa.
A sepultura foi encerrada e o caso também, com o nosso Inspector a regressar ao escritório com mais um cheque no bolso, tendo deixado com a Lady um cartão de uma empresa de trabalho temporário dirigida pelo seu ex-guru da Faculdade, o Emplastro (pois haviam combinado ajudar-se mutuamente sempre que possível e a Lady precisava agora de um mordomo, um cozinheiro e um gato).
Aos 28 anos de idade, já famoso e sem mãos a medir tantos os casos de que se ocupava (a própria Argúcia Acutilante já não tinha patas a medir, só para terem uma perspectiva da coisa), o nosso Inspector coloca um anúncio no Jornal "A Capital" a solicitar um ajudante.
Após ter entrevistado pessoalmente todos os candidatos, e com uma certa mágoa por não ter aparecido nenhuma candidata ao lugar, decidiu-se por contratar um tal de Tino, que também fazia biscates como calceteiro e era o tipo mais estúpido de toda a Península Ibérica e arredores (mais tarde haveriam de aparecer tipos semelhantes, de cachimbo e fato, no extremo ocidental da Europa, numa região chamada Erretêpê).
Uma vez mais, e para não variar, os seus serviços voltam a ser requisitados pela Lady Saint-George, que dera pelo sumiço dos seus brincos de jade.
Após se ter inteirado de todos os factos, a mente perspicaz e devastadora do nosso Inspector (que contrastava nitidamente com a do Tino que, entrementes, se ía deliciando a observar a calçada tipicamente portuguesa que ocupava o espaco do portão para a propriedade e o palacete da Lady, enquanto chupava um halls de mentol) entrou em ebulição e, fervilhando, dirigiu-se na direcção do depósito de lixo da família.
Afinal, tinha sido Stevie Wonder, o novo mordomo, levemente míope, que havia confundido os brincos com os caroços de ameixa do almoço e os tinha depositado, sem querer, no balde do lixo.
Como recompensa, foi também ele alegremente pendurado pelo pescoço numa árvore do jardim, o que originou uma manifestação contra o racismo, apoiada pela Sociedade Portuguesa de Autores a pedido da sua congénere norte-americana, pelo que a Lady teve de o soltar e deixar que agentes do SEF o reencaminhassem para o seu país de origem.
No mês seguinte, o nosso Inspector recebe um telefonema no seu escritório da, imagine-se, Lady Saint-George, que lhe anunciava o desaparecimento do seu famoso colar de diamantes, oferta de um príncipe hindu, não se sabe porque serviços prestados.
Era o cúmulo.
Aquela gaja perdia tudo, bolas!
Cansado da profissão, o nosso Inspector resolveu aposentar-se precocemente e aposentou-se tão bem que mais ninguém dele soube, mas suspeita-se que terá passado os últimos dias em parte incerta, tentando ensinar o Tino a ler e a colaborar activamente num blog, mas isso são tudo boatos por confirmar.
FIM
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