Hoje não vão existir, da minha parte, fotos absurdas, com comentários malucos.Hoje não haverão, aqui no blog, as secções People are strange e Maio - Mês do Coração.
A razão é tristemente conhecida: hoje é o Dia Internacional da Criança Desaparecida.
Por isso, por tudo o que tal representa, este é um momento que entendo ser de profunda reflexão para todos.
Começo por dizer que me choca que exista quem difunda notícias a dizer que hoje se comemora este dia.
Pela minha parte, não encontro qualquer motivo para comemorações.
Depois, limito-me a observar o óbvio: a dor lancinante, de levar à loucura, que qualquer pai ou mãe normais não sentirão quando se apercebem que o filho ou a filha não regressaram a casa, como seria habitual.
Imaginem, apenas, que aquela pessoa de quem vocês mais gostam, aquela que vos diz tudo, que amam incondicionalmente, desaparece.
Conseguem sentir, no vosso íntimo, um vislumbre dessa dor, dessa agonia?
Agora multipliquem esse sentimento por um número bem redondo, bem gordo e talvez assim se perceba o que devem sentir essas pessoas...
Pessoas essas que, não convém esquecê-lo, hoje são os outros.
Mas que, amanhã, poderemos ser nós.
Porque o mal, profundo, enraivecido, brutal, aparece do nada e não tem uma face vísivel, representando algo que sempre me arrepiou profundamente.
Já que o mal se enraíza onde menos se espera e se disfarça de maneiras e formas inimagináveis, transformando seres humanos aparentemente normais em autênticas bestas, em monstros capazes de cometer as maiores atrocidades, regressando posteriormente ao convívio social como se nada tivessem feito, como se nada nas suas vidas e nas daqueles que violentamente destruiram, sabe Deus a que preço, tivesse mudado.
Confesso que sou bastante fundamentalista no que toca à criança, a toda e qualquer criança. Como li uma vez, Deus estava a rir-se e profundamente bem disposto quando criou a criança.
Ser criança é ser puro, é ser alegre, é ter o dom da brincadeira constante, do sorriso fácil, da partida que se prega a gargalhar, do beicinho, da ternura, da pureza, do amor... em suma, da perfeição!
E tudo o que é perfeito é, por esse motivo, cobiçado e invejado.
Para mim, é estranhamente elucidativo que, a nível mundial, não existam números exactos capazes de ilustrar o desaparecimento de crianças.
Apenas se sabe que são milhares.
Apenas se sabe que todos os dias elas desaparecem.
Apenas se sabe que, neste preciso momento em que escrevo estas linhas, se calhar outra criança estará a ser levada sabe-se lá para onde e para que fins.
O que nos leva a outro ponto: os fins.
Se há aquelas que fogem de casa, por inúmeros motivos (e estou em crer, serão uma percentagem ínfima das crianças desaparecidas), outras há que são levadas, raptadas, separadas dos respectivos ambientes familiares, para engrossar outras famílias, para comércio de órgãos e para satisfação de prazeres sexuais de adultos.
Estamos em pleno século XXI e eu estou a escrever, nos tempos da civilização moderna, nos tempos em que as distâncias se encurtaram, nos tempos dos grandes avanços tecnológicos e científicos, a respeito de uma questão que nem deveria existir na mentalidade sócio-cultural da actualidade.
Porque é antinatural.
Porque é nojenta e repugnante.
Porque revela uma demência a toda a prova de quem, a troco de dinheiro fácil (de muito dinheiro fácil), se entrega a uma prática que é, a todos títulos, inqualificável.
Mas, como sempre se refere, desde que o sofrimento não seja nosso...
Urge tomar a consciência do que se passa.
O Estado não se pode demitir das suas responsabilidades, tal como nós, cidadãos comuns, não nos demitimos das nossas.
Mas o problema não é só estadual, tem de ser encarado à escala planetária, todo o planeta tem de estar envolvido na procura de soluções para este tipo de problemas, que não são de resposta fácil e exigem de todos os intervenientes um empenho que vai muito para além do que lhes seria normalmente exigível na resolução de outras questões.
Ainda ontem, por exemplo, assisti a uma reportagem sobre dois predadores sexuais que actuavam na zona de Lisboa (o Prior Velho é mesmo aqui ao lado, caso ainda não se tenham apercebido) e de Coimbra (é no nosso País, já se deram conta?), já para não falar do conhecido e mediático caso de Madeleine (o Allgarve, afinal, ainda não é espanhol).
Agora distribuam estes recentes casos, mais os outros que existiram em Portugal e não tiveram o mediatismo nem os meios envolvidos neste recente, pelo resto do Mundo e chegarão à conclusão que esta é uma realidade dos nossos dias, relativamente à qual não devemos fechar os olhos, voltar as costas e fingir que nada é connosco.
Custa-me, por exemplo, saber que existem pessoas referenciadas como pedófilos, como raptores ou capazes de cometer tamanhos actos e outros semelhantes, que andam por aí, completamente despercebidos, a "marcar" crianças, a conhecer os seus hábitos, a aliciá-las e, depois, a separá-las, nalguns casos para sempre, do seu conforto: a sua família.
Para terminar, gostaria ainda de referir um último ponto: a criança.
Deixei-a para o fim propositadamente.
Ela é a grande vítima de uma situação para a qual em nada contribuíu, de uma situação onde se procuram bodes expiatórios nos familiares, nos amigos, nos vizinhos, nas autoridades, em suma, naqueles que deveriam ter tornado a mão invísivel um pouco mais visível num determinado dia e não o fizeram (como o poderiam ter feito, se não temos ainda o dom de adivinhar o futuro?), quando o verdadeiro culpado é anónimo, chega pela calada e, numa questão de segundos, transforma pessoas normais em verdadeiros cadáveres ambulantes, em seres estranhos consumidos por culpa, angústia, remorsos, interrogações sem resposta e parados no tempo e na vida, que já nem vida será.
Seres cujos olhos demonstram as lágrimas que se amontoam nos respectivos corações, nas respectivas almas, e que de bom grado dariam a sua própria vida para terem de volta, a seus braços, ao conforto de um lar que já foi feliz (à sua própria maneira), a criança que foi deles e que, subitamente, desapareceu.
Pensemos, então, na criança.
No que ela sentirá quando, de repente, não mais vê os pais, os irmãos, os tios, os primos, o resto da família, os vizinhos, os coleguinhas e amigos, os seus brinquedos, o seu quartinho e, na maior parte dos casos, acaba por ser maltratada e molestada por quem nunca viu, por um adulto que, na sua cabeça, deveria gostar dela, deveria protegê-la, amá-la, que lhe sorriu, lhe ofereceu falsamente algo de agradável e agora lhe causa aquela dor e, se necessário, no cúmulo da perversão, lhe tira a vida como quem bebe um copo de água e encobre esse vil crime de maneira a não deixar pistas.
Poderá essa criança algum dia, mesmo que em outro mundo, desculpar-nos, adultos normais, por deixarmos manter entre nós estes outros adultos que tanto mal lhe causaram sem motivo?
Para ela, que nunca me lerá e a quem nunca mais será contada uma história para adormecer, antes de se aninhar nos lençóis lavados, numa cama que era sua, e receber os beijos de amor dos que lhe estão mais próximos, ficam as minhas lágrimas.
E estes miosótis, que são a flor da saudade.
Hic Hic Hurra