Hoje em dia, quando passamos por qualquer livraria, apercebemo-nos de que qualquer gato-pingado consegue escrever e publicar um livro.
Incluindo a Carolina Salgado.
Ou o Pedro Santana Lopes.
Mas a verdadeira profusão pode ser encontrada no romance policial histórico. Na verdade, raros são os autores que não passaram por lá.
E a verdade é que, actualmente, é muito fácil escrever um romance histórico.
Basta juntar uns quantos corolários na sinopse para atrair a atenção do consumidor.
Comecemos pelo herói ou heroína.
Quando o autor é um homem, o herói da história é normalmente masculino. E como esse autor é normalmente americano, o herói também o é.
Aliás, o que sobressai da análise do mercado é que a maior parte dos autores são americanos; as autoras são normalmente europeias.
No caso dos autores americanos, a heroína é sempre de uma de duas nacionalidades: francesa ou italiana. Isto porque a maior parte das histórias passam-se sempre em França ou na Itália e convém meter lá alguém da terra.
As autoras são mais diversificadas na escolha da nacionalidade das heroínas e dos heróis, mas existe sempre um ponto em comum: nunca meter lá pessoal de nacionalidade tuga, mesmo quando as autoras são portuguesas.
Passemos à história.
Aproveitando as ondas científicas de ataque ao catolicismo, normalmente um romance policial histórico tem sempre subjacente um segredo ligado:
a) A Jesus Cristo;
b) Ao Santo Graal;
c) A ambos.
Devo confessar que tenho um fraquinho pelos segredos ligados a Jesus Cristo. Desde ser casado com Maria Madalena, ter irmãos, ser irmão de Judas, ter sobrevivido à Crucificação graças ao Graal, ter um irmão gémeo, entre outros, o homem tem-se revelado ser um verdadeiro poço sem fundo de criatividade para novas histórias. A minha favorita ainda é aquela em que, na realidade, Jesus e os doze apóstolos mais não eram do que os precursores do orgulho gay e de que Judas entregou Jesus aos judeus por se sentir uma bicha enganada (aquele beijo de Judas tinha de ter algo significado).
Depois disto, temos de meter uma das velhas ordens medievais ao barulho, desde os Templários ao Cátaros, passando pela Maçonaria (se não são medievais, parecem) e pelo inevitável Priorado do Sião.
Depois disto, há que arranjar um mau da fita, normalmente um católico de extrema direita, ou uns quantos cardeais do Vaticano.
Arranja-se um guia turístico, algumas perseguições e situações absurdas das quais os heróis sempre se conseguem safar (eu normalmente nunca os faria sobreviver ao primeiro capítulo) e já está… pronto a vender.
Como o referido estilo literário já me começa a chatear, só pergunto isto: para quando o lançamento do 2.º volume das memórias da Carolina Salgado?