quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Marquesada I

"Fátima, manhã de dia de Outubro. Os inspectores da ASAE desdobram-se em actividade de fiscalização em hóteis e restaurantes na localidade, preparando a segurança alimentícia dos peregrinos que chegarão nos dia vindouros.
- Ora muito bons dias - exclamou o inspector Silva ao entrar no estabelecimento, dirigindo-se a uma senhora cinquentona que ali se encontrava atrás do balcão - A senhora é que é a dona deste restaurante?
- Bons dias. Eu sou a dona do estabelecimento, xim xenhora, mas o senhor deve estar enganado que isto não é um restaurante.
- Olhe, tá a ver, ASAE - disse o inspector Silva mostrando um crachá que trazia na parte interna da lapela do casaco.- Se eu digo que isto é um restaurante, é porque é um restaurante. Onde é que está a cozinha?
- Mas qual cozinha, sinhori?! Então eu já não lhe dixe que isto não é um restaurante? Já viu algum restaurante cheio de santinhos e de velinhas e com imagens da Virgem por todo o lado?
- Por acaso, acabo de sair de um desses. Está a ver o restaurante "Fátima", ali daquele lado da rua? Olhe que é quase igual por dentro ao seu estabelecimento. Deixe-se lá de coisas, minha senhora, e diga-me lá onde é que é a cozinha ou terei de a mandar deter por desobediência à autoridade.
- Mas julga o senhor que eu sou parva ou quê? Posso mal saber ler, mas o meu filho, que anda metido nessas coisas da droga, pese embora as minhas constantes preces à Virgem, já me disse que hoje em dia ninguém pode ser preso por causa daquela nova lei que deu na televisão no mês passado. Por isso o senhor não pense que me pode comer por parva que eu não sou! A Virgem está do meu lado e há-de velar por mim!
- Minha senhora, não piore a sua situação. Olhe que eu vou ter que mandar apreender o material todo do estabelecimento por ser prejudicial para a saúde dos consumidores enquanto estes se estão a alimentar neste lugar.
- Mas eu já disse, pelo amor da Virgem, que o meu estabelecimento não é um restaurante!
- Por mim, chega! A sua teimosia só lhe causa prejuízos. A partir deste momento, a senhora tem o seu estabelecimento encerrado enquanto não estiverem reunidas as condições para que os consumidores se possam se alimentar nas devidas condições neste local. Tá tudo apreendido! Ó Neves - gritou lá para fora - traz a carrinha!
- Mas eu só vendo velas e santinhas e fios e...
- Não interessa. Tá tudo fechado e apreendido enquanto a senhora não puser isto em condições de funcionar para fornecimento de comida ao público.
E lá saiu o inspector Silva do estabelecimento, pronto para passar à fiscalização do restaurante seguinte, o qual apresentava um ar deveras ameaçador: tinha uma imagem da Virgem no meio, encontrando-se uma data de pessoas a rezar na direcção da dita imagem por todos os lados, parecendo mais uma capela do que um restaurante.
"Dura lex, sed lex", pensou o Inspector Silva, e entrou no local em apreço perguntando a um tipo, vestido tal e qual um padre, e que se encontrava à frente da imagem da Virgem a falar em latim, onde é que ficava a cozinha".

2 comentários:

Bottled (em português, Botelho) disse...

Caro Senhor Marquês,

E a coisa vai mais longe, uma vez que agora se vai averiguar se as 30 moedas de prata que Judas recebeu por trair Jesus Cristo foram declaradas ao fisco ou não!

Hic Hic Hurra

Inspector Serôdio, José Serôdio disse...

Senhor Marquês,

Acho de muito mau gosto fazer pouco dos senhores inspectores da ASAE.
É que eles sabem muito bem distinguir um restaurante de uma loja de artigos chineses!