terça-feira, 9 de outubro de 2007

Homo hominis lupus

Distinguir o natural do artificial é extraordinariamente fácil.
O natural é o que existe, sempre existiu e que sofreu alterações por força de fenómenos também ele naturais (como, por exemplo, a erosão numa rocha; a subida e descida das águas do mar, ao longo dos tempos; o movimento da Lua em redor da Terra e desta última, tal como os restantes planetas do sistema, em redor do Sol).
O artificial é o que resultou da invenção humana, que talhou o ambiente natural à sua maneira, de acordo com as suas necessidades ou interesses.
O natural é, pois, obra de um Criador, distinguindo-se do artificial já que este é obra de vários criadores e constrói-se a partir da destruição ou alteração do natural.
Por outras palavras, onde existe o artificial já existiu o natural, que foi por aquele alterado ou consumido e eliminado.
O natural é belo, tão belo que quase nos esquecemos do quão sublime é tudo o que nos rodeia e que já estava criado muito antes de nós, espécie humana, decidirmos meter mãos à obra e adaptá-lo consoante nos era mais favorável (com tal afirmação não pretendemos afirmar que tudo o que é artificial não possa revestir utilidade ou ser belo, tanto mais que resultando de uma criação humana tem na sua génese um outro Criador e, segundo princípios de causalidade, o artificial também surgiu do natural e, quando bem elaborado, também é belo).
Isto numa primeira fase, porque, depois, o conceito do que seria mais favorável para a espécie humana foi evoluindo (ou talvez não, na minha perspectiva) e individualizou-se, ou seja, concentrou-se no que era mais favorável a certos grupos de indivíduos ou apenas a um indivíduo em particular.
E a realidade veio demonstrar, por inúmeras e incontáveis vezes, que os interesses de um só ser ou de um grupo de seres humanos podem não ser os que mais beneficiam todo o conjunto.
A organização societária da espécie humana, associada à noção de riqueza ou lucro, muito contribuiu para este estado de coisas, uma vez que o status quo ou posição social passou a ser determinado não em função do respeito adquirido pelos conhecimentos e sapiência de um líder natural, que aprecia o bem colectivo e consegue fazer funcionar o todo com benefícios genéricos, mas do respeito que é impingido através do seu poderio económico.
E, ao longo dos séculos, fazendo uma curta análise da evolução da sociedade humana, entendida enquanto núcleos organizados e densamente povoados, verificamos, sem grande esforço, que a preocupação de domínio que alguns adquirem não se encontra directamente ligada com os seus méritos enquanto seres conscientes e, como tal, pensantes, mas sim com a forma como conseguem assegurar posições dominantes em vários sectores da vida e, em função das mesmas, assumir um predomínio que os leva a obter o respeito e a mobilização dos seus semelhantes, nomeadamente os que integram a sua área de integração ou de influência.
Nesta perspectiva, a vertente política, desde que o homem passou a reger-se por regras de conquista territorial, criando nações e erigindo-as a Estados soberanos, passou a ser uma área de domínio por excelência, tendo-se criado uma série de sistemas políticos que, embora talvez já existissem de forma primitiva e rudimentar em períodos históricos anteriores, foram sendo utilizados consoante as convicções e intenções dos grandes senhores que, por factores diversos, conseguiam obter posições dominantes no interior de cada nação, muitas das vezes através do recurso à força física e ao terror.
Resulta, aliás, provado que este método foi sempre de uma eficácia a toda a prova para conseguir a implementação das ideias de cada ser dominante (ou conjunto de seres dominantes), tendo em atenção a estranha e incompreensível dificuldade latente que existe para o consenso entre a espécie humana.
O que não deixa de ser algo de curioso, uma vez que se perguntarmos no mesmo universo de inquiridos quais os que não concordam com uma sociedade onde o bem-estar colectivo esteja devidamente assegurado, onde exista saúde, educação, ocupação para todos, um nível de vida adequado e digno, respeito pelas regras societárias, ausência de criminalidade e outras facetas de grande utilidade para o bem comum, por certo que obteremos uma unanimidade de opiniões.
O que nos leva a constatar que algo está profundamente errado e que o poder, legitimado ou não pelo povo, poderá não ser a solução para tudo o que temos vindo a verificar ao longo da ainda curta história da humanidade.
E não podemos deixar de referir a tendência para o mal, para a violência, à qual assistimos com enorme passividade e indiferença, de acordo com o princípio de que não é connosco ou de braços cruzados e com uma enorme sensação de impotência, aguardando que alguém ou alguma entidade resolva por nós esse problema.
Quase que esperamos e desejamos que seja o normal desenrolar das coisas, o bater ritmado e compassado do Universo, que volte a colocar tudo no curso correcto, o que não deixará de suceder mas levará, certamente, muito tempo, talvez mais do que aquele de que dispomos numa só vida.
Olhamos em redor, à nossa volta, e o que vemos?
A beleza do natural totalmente obnubilada pela fealdade do artificial (pelo menos, em grande parte), porque uma série de iluminados assim o tem decidido ao longo dos tempos.
Como se já não bastassem as catástrofes naturais, muitas delas imprevisíveis e com consequências altamente nefastas, também o ser humano, na sua ânsia pelo poder, pelo controlo dos outros, na sua avidez pelo bem-estar pessoal, consegue destruir em pouco tempo tudo aquilo que lhe é dado, numa preciosa bandeja, a desfrutar.
Falamos, historicamente, das guerras cujos fundamentos nunca podem ser santos, como muitas se arrogaram, do extermínio de inocentes que não passam de meros peões em lutas pelo poder e que se limitam a estar na hora errada e no local igualmente errado.
Falamos de questões que se prendem com atropelos à liberdade individual, quer seja em termos físicos quer seja em termos intelectuais, cujos exemplos são mais do que muitos e nos dispensamos de enumerar neste texto.
Falamos de personagens cuja loucura e demência conseguiram encontrar eco em outros que se lhes juntaram, transportando essas anormalidades para a vida dos seus semelhantes e, com tais actos, colocando termo à mesma ou tornando-a impossível ou insuportável.
E, muitos séculos volvidos desde o Big Bang ou desde a criação deste mundo (quer optem pela explicação científica quer pela teológica, independentemente da religião que professem ou com a qual se identifiquem), muitos séculos após a existência do ser humano neste planeta Terra – e falamos de milhares de anos - a humanidade ainda não aprendeu a lição e poucos são os que conseguem, no meio de tanta atrocidade, fazer valer a sua voz.
Líderes espirituais e homens de grande intelecto que responderam à agressão que era feita aos seus países, aos seus conterrâneos, a pessoas, animais, plantas, ecossistemas e meio ambiente, demonstrando que o caminho a trilhar teria de ser o da sua preservação pela paz e pelo amor, foram sendo afastados e aniquilados de forma bárbara e cruel, como se a sua morte, o seu martírio, a sua tortura, o seu degredo, o seu exílio ou a privação da sua liberdade conseguissem o que nunca será conseguido.
A história está cheia de exemplos, é uma questão de os procurarmos (creiam-me, difícil será não os localizar facilmente).
O que permanece, no entanto, é a triste constatação de que somos nós, apenas nós, os grandes responsáveis pela situação que vivemos na actualidade.
Somos nós os responsáveis pelos actos terroristas que existem no mundo, pelas guerras que dizimam as vidas e as expectativas de bem-estar de muitos, pela existência de calamidades à escala planetária, por não nos preocuparmos com o futuro de nossos filhos, vivendo apenas o momento presente, cegos pelas tarefas diárias que nos são impostas, para que com os proventos que delas extraímos consigamos ter um nível de existência que consideramos digno, abstraindo-nos dos que sofrem, dos que não gozam das oportunidades de que gozamos, dos que tentam e não conseguem, porque o caminho está constantemente tapado em função de conveniências dos poderosos, a maior parte das vezes em total desrespeito pelo mérito e pelas competências para o desempenho das tarefas.
Quando nem sequer respeitamos os que nos estão próximos (quantos, no seio da própria família, não praticam acções condenáveis e ficam impunes? Quantos, no local de trabalho, ascendem e conseguem promoções à custa de outros que, provavelmente, até teriam mais condições, ao nível do mérito e da competência, para o desempenho das funções? Quantos, sob a desculpa da prática de actos de caridade ou de benefícios para terceiros, não passam pela vida com o único objectivo de enganar o seu semelhante?...)
É por isso que existe fome e que proliferam doenças de fácil cura e tanta dor por esse mundo fora quando tudo seria perfeita e facilmente evitável se todos nós, que estamos sentados no mesmo barco, nos limitássemos a remar ao lado dos nossos companheiros nesta viagem que é a da existência, conduzindo a embarcação, por entre as revoltas águas dos infortúnios naturais, a porto seguro, a um lugar onde todos se sentissem, verdadeiramente, em casa.
É por isso, em minha opinião, que este mundo, ainda uma criança, chora lágrimas de sangue.
Pois o pior dos animais anda à solta sobre a Terra e, na sua constante gula, devora todos os que se lhe apresentam no caminho, ainda que sejam da mesma espécie.
Até quando?

Hic Hic Hurra

Nota – O presente texto reflecte apenas a visão do autor e é da sua exclusiva responsabilidade. Intencionalmente, foram omitidas referências a outra espécie de mal que tem vindo a crescer a olhos vistos: o da criminalidade, que nem sequer tem em atenção as idades e o sexo das vítimas. Mas isso fica, se surgir oportunidade, para segundas núpcias.

3 comentários:

Inspector Serôdio, José Serôdio disse...

Ganda Zé,
Agora deste em filósofo?!?

Olha que não concordo com essa do natural vs artificial, sobretudo quando miro espécimes tipo Pamela Anderson uns centímetros abaixo do queixo!...

Marquês disse...

Outra tentativa de cura de desintoxicação do vinho durante as férias?

Bottled (em português, Botelho) disse...

To drink or not to drink?

Stupid question: to drink, of course!

Hic Hic Hurra