Carta aberta a meu reencontrado e quinado pai
Caro papá,
Ainda nem estou em mim, por saber-te vivo, bem, de saúde e próspero na vida.
A verdade é que nunca acreditei na mamã quando ela me afirmava que eu tinha sido encontrado a boiar num lagar de vinho e que, devido a tal facto, desconhecia quem seriam meus verdadeiros pais e assim se explicava a minha inclinação, desde muito jovem, para a bela da pinga.
Foi graças à onda de solidariedade que se gerou na vizinhança (vizinha Maria, estou-lhe, repito-o, muito agradecido por trazer conforto e calor ao coração deste pobre mortal, que julgava já nunca mais vir a saber a verdade sobre as suas origens), que consegui saber o teu trajecto.
Deixa-me, pois, nesta mesma onda, revelar-te um pouco do meu:
Quando entrei para a escola senti muito a tua falta, não só porque a mamã, infelizmente, como tinha de trabalhar para me sustentar a mim e à minha irmã gémea (sim, papá, foi um jackpot o teu, mataste logo dois coelhos com uma cajadada só), não me podia dar explicações sobre a matéria (o que levou a que só recentemente, no âmbito de um plano chamado Novas Oportunidades, tivesse concluído a instrução primária), mas também porque, sempre que a coisa dava para o torto no recreio e eu ía às fuças a algum coleguinha, no dia seguinte estava quilhado porque levava na tromba do respectivo pai e eu não tinha pai para ajustar contas com ele!
Tive de me safar conforme podia, e desde de furos nos preservativos até pneus furados e enxames de abelhas enfurecidas deixadas trancadas nos respectivos lares à noite, com as portas e janelas obstruídas por fora, lá fui colmatando a tua falta.
Depois, porque a mamã já não suportava ver a minha azelhice primária para o ensino e estava farta das queixas que choviam a toda a hora a meu respeito, decidiu tirar-me da escola e arranjou-me emprego como engraxador de sapatos, onde me refinei na nobre arte de dar graxa, não sem antes, como era da praxe, tivesse feito das minhas... sobretudo naquele dia em que, ainda ensonado por me ter levantado às 5 da manhã, troquei o frasco do líquido abrilhantador do couro pelo frasco do ácido sulfúrico e depois, quando passei com o mesmo nos sapatos novinhos e acabados de estrear do Presidente da Junta de Freguesia lá da terra, recordo-me como se fosse hoje, até pensei que o homem estava a criar uma nova dança da moda, tal a forma como saltava e urrava.
Felizmente, o médico da terra ainda conseguiu salvar-lhe as pernas do joelho para cima e as amputações foram ligeiras.
Devido a este infeliz incidente, tive de emigrar para Marrocos, onde entrei ao serviço de um senhor com poucos escrúpulos, o qual me vendeu, a troco de 12 camelos, a um mercador que vendia pedras de gelo no estado líquido em Rabat, o que possibilitava enormes equívocos na emissão das facturas, que estava a meu cargo, já que eu teimava em escrever a designação da localidade tal como a escutava logo após o nome do meu patrão e a coisa ficava assim: Hadji Muhammed Enrabado; o que arruinou o negócio do homem, bem como a sua reputação.
No desemprego, fui capturado por uma tribo de beduínos que me vendeu, como escravo, depois de rapidamente ter chegado à conclusão que eu dava mais despesa a alimentar que toda a tribo durante a sua existência.
Foi assim que entrei ao serviço de uma cidadã britânica que se apiedou de mim e verificou que, apesar de jovem, eu era um tipo bem disposto e com grandes capacidades vínicas.
Esses foram bons tempos, em que eu tinha completa liberdade e funcionava assim como uma espécie de Sherazade com tomates, já que apenas tinha de contar à minha benemérita anfitriã uma história por noite e era recompensado com garrafas de vinho do Porto e de bons vinhos europeus cada vez que ela se divertia, o que fez aumentar exponencialmente a minha capacidade inventiva (pelo menos era o que ela dizia, perdida de riso, até que teve uma crise de asma por tanto rir e ficou-se que nem um passarinho).
Contei-lhe 1001 histórias até ao fatal dia.
Tendo ficado o seu único herdeiro, por força de um testamento, regressei a Portugal, por onde fiquei até assentar arraiais nesta aldeia, que me acolheu dignamente e para a qual tento contribuir com o fruto do meu labor.
Da mamã nunca mais nada soube, pelo que não te poderei dar o seu contacto, mas acredite que não tenho nada a perdoar-lhe, pois a vida tem a sua maneira muito própria de nos mostrar o caminho a trilhar e o pai seguiu o seu, tal como eu segui o meu e tal como todos nós tentamos seguir o nosso.
Em breve estaremos reunidos, por certo, e isso irá possibilitar-lhe conhecer o resto da família, pois não sou, tal como o papá nunca foi, homem para viver sozinho e acho que esta vida apenas faz sentido quando conhecemos alguém capaz de nos amar e que, em simultâneo, nos possibilita a nós demonstrar-lhe essa mesma capacidade, de tal forma que ela se prolongue intemporalmente durante as nossas vidas em outro ser, ou seja, sou hoje um respeitável e ébrio pai e marido numa família portuguesa, ainda que não compreenda como tal é possível.
Ao que acresce, meu caro papá, outro valor importante e que muito prezo: o da amizade, que acaba por ser um outro tipo de amor e, embora sabendo que não lhe estou a ensinar nada, é outra das mais-valias de quem está vivo (aproveitarei a oportunidade para lhe dar a conhecer os meus restantes colegas de blog, a quem muito prezo, e a vizinhança espectacular que, espero, continuará a vir deixar-nos a sua atenção simpática, lendo-nos, deixando as suas opiniões e brincando connosco, numa interacção tão agradável que torna mais leve o duro fardo que é viver em sociedade nos tempos que correm).
E desta forma singela, profundamente emocionado, me despeço, papá.
Até breve.
Hic Hic Hurra
Nota - Poderia o papá fornecer o vinho para brindarmos ao reencontro? É que tenho andado um bocadito fragilizado de finanças nos últimos 10 anos, mas estou convicto de que é algo passageiro...
Nota 2 - Obrigado por não teres referido o episódio com a ovelha...
6 comentários:
Caro vizinho,
Fiquei emocionada! Que venham os klenex, renova e tudo mais!! que venha o vinho do seu papá e do meu tasco e dos tascos vizinhos! que venha a vizinhança, que venham os vizinhos dos vizinhos, os comentadores, os leitores timidos e os anónimos!Isto é bonito!!
TUDO PARA A HERDADE !! ( com a sua licença e do seu papá!! Festa é festa, certo?)
Cara vizinha Maria,
Lá terei eu de apanhar outra de caixão à cova, raios...
Festa... mas que palavra mais linda!!!!!!!!!!!
Hic Hic Hurra
Nota - Se me pudesse indicar apenas onde fica a herdade, isso era capaz de ajudar um bocadito para que eu marcasse presença na festarola, digo eu...
Filho,
o papá está emocionado com a tua bela história.... mas já agora: nao me arranjas o número de telefone da tua mae?( já agora recorda-me do nome, para eu não cometer nenhuma gaffe oki)
quanto a ovelha e tal... eu sou teu papá não sou teu psiquiatra, e ia lá divulgar na aldeia que tu e a ovelha e a ovelha e tu ... estavam apaixonados? és meu filho caraças!há coisas que não sem dizem em publico, como também não se dizem que tiraram umas fotos comprometedoras com o teu amor felpudo! Eu , o teu papá, não acredito!!! não acredito e não acredito!
mas olha filho, aqui na herdade tens vinho que dará para ti para toda a eternidade!! é verdade a tua irmã é jeitosa? ( ah esquece é minha filha, não é? hum... e para o meu outro filho? hum... ah são irmãos.... olha, diz-lhe que tenho muitas saudades dela... e da mae dela ( a tua mae!!)
Filho, dá-me lá o número!
do teu papá,
João Porvinho
Caro papá,
Acho que conseguirás encontrar o número de telefone da mamã nas páginas amarelas.
Se excluires os nomes masculinos, é um dos nomes femininos que lá estão!
A menos que não tenha telefone, o que já dificultaria a tua pesquisa!
Espera aí, recordo-me vagamente da mamã ter bigode e tu não... vai daí, se calhar, o nome dela não seria tão feminino assim. É melhor veres todos os nomes da lista, um por um!
Gostava de te poder ajudar, mas vou estar ocupado a dar-te cabo das reservas vínicas...
Sei que compreendes esta minha necessidade...
Hic Hic Hurra
Nota - Obrigado por não acreditares na cena com a ovelha. Até porque ela era, afinal, uma cabra!
Estou com a Mery, depois deste sentido reencontro vamos todos para a herdade.
Será que podemos ter umas garrafitas para casa?!
Cara vizinha ticha,
Sirva-se, porque assim como assim é o meu papá quem paga!!!!
Hic Hic Hurra
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