sábado, 6 de janeiro de 2007

Preliminares

O nosso Zé Porvinho apresenta-se ao volante do seu inseparável Peugeot 404 de 1966.
Sabendo nós que não é pessoa especialmente abonada (economicamente falando, tá bom de ver!), já que, como grande patriota que é, os seus proventos se destinam prioritariamente a apoiar a actividade vitivinícola nacional, a sua equipa resume-se a:
- navegador - Xico Sete-Luas, notável cliente da Taberna, conhecido pelo seu incrível feito diário de à saída da tasca, mais atestado de tinto que a Adega Cooperativa de Almeirim em Outubro, conseguir sempre achar o caminho de volta a casa, a 2 quarteirões de distância; não se lembra de ter aceite o convite do Zé para participar no rali (nem aquele de o ter convidado), mas palavra de amigo dos copos não se discute!
- mecânicoCá-Jó Lagares, filho do dono da Taberna da Aldeia que, para lhe pagar os 56.543 penaltis de tinto que lhe deve à conta das suecas perdidas, lá aceitou o trabalhito e meteu férias da oficina em que é bate-chapas em Famões.
- Apoio vín, digo, logísticoTó-Mané Vinhas, compincha de muito copo e igual número de comas alcoólicas.
O Rali foi preparado ao mínimo detalhe. Assim, de há 6 meses a esta parte que o Zé e a sua equipa se reunem diariamente, tendo estabelecido como quartel general para os preparativos o «reservado» da Taberna. Na semana passada lá se decidiram a fazer uma moratória de 10 minutos antes de começarem a beber – ficando-se apenas pelos tremoços –, já que ainda íam na antevisão da primeira etapa (Lisboa-Portimão).
Está tudo a postos, se bem que nestes dias de verificações técnicas e apresentações ainda ninguém conseguiu acordar o Zé, que dorme profundamente no banco de trás do seu bólide desde a madrugada de 4.ª feira, altura em que terminou a festa de despedida na Taberna.

***
Já o impagável Marquês, lançando mão dos seus vastos recursos, reuniu no seu solar de Nafarros os maiores peritos concelhios em todo-o-terreno. Há pelo menos 4 meses que na dita propriedade se assiste a um corropiu de mecânicos, fornecedores, técnicos informáticos, geógrafos, canalizadores (os seculares canos do solar...) e gigolos.

O seu veículo, após aturada escolha de entre o grande número de automóveis que recheiam a sua «garage», será o tão estimado Rolls-Royce Silver Dawn 1999.

Também a sua equipa não deixa por mãos alheias os pergaminhos da nobre estirpe dos Saraivas, Marqueses de Cótimos e Viscondes de Bruçó. Assim, temos:
- Navegador(a) - sua nobre esposa, a Marquesa, que se impôs dizendo «só o menino é que se pode divertir? Isso é que havia de ser bonito! Com aqueles palácios, tanta marroquinaria (e belos marroquinos, ó lá lá), sedas e areias sublimes que fazem uma estupenda mascara de beleza facial, tá decidido: vou!»; «é certo que a piquena de navegação só deve saber o caminho de ida para a modista (que à volta já só vê a blusa nova)», cogitou o Marquês «mas nada que um GPS não resolva»; é que isto de contrariar uma mulher com um génio daqueles não está ao alcance de qualquer um...
- Mecânico - Senhor conhecido pelas suas cautelas (homem prevenido vale por 2, e eu sou muito homem!», costuma amiúde afirmar), Marquês arregimentou todo o quaro de pessoal da Auto-Mucifalense, Lda., conhecido estabelecimento pertença de Quim Farolim, especializado em todos os arranjos e afinações de automóvis, motos e carrinhos de arrolamentos; uma vastas equipa, que numa semana desenhou e construiu uma estufa de pintura de automóveis ambulante.
- Apoio - Na comitiva podem ainda encontrar-se todo um séquito de gente, imprescindível a assegurar o habitual conforto que em caso algum o Marquês (e sua esposa) pode dispensar:
Adelaide (criada de quarto de Sua Senhoria, D. Marquesa), Zeferino (mordomo), Jean-Pierre (cozinheiro), Manolito (coiffeur), Zé Negão (amante da Marquesa); Manuel Papoila (jardineiro - «aquilo é uma secura, é preciso alguém para regar e pôr as plantas viçosas», justificou a Marquesa), Natércia Maria (manicure, pedicure e rádio-amadora), Pais dos Santos (pároco de Nafarros - «com tantos infiéis carecemos de protecção divina», lembrou-se o Marquês) e Magda Castelina (ajudante de farmácia).
Parece que tudo ficou pronto a tempo e horas, com a bagagem devidamente acondicionada na frota de TIR's fretada para o efeito.
Notada foi a cena protagonizada por Sua Senhoria, junto da Organização e da Polícia Municipal, quando chegaram ao local de concentração da caravana. Que alguém lhe explicasse porque é que não se podia instalar até ao dia da partida naquele hotel enorme e fantástico em estilo néo-manuelino que fica mesmo junto ao estaminé!...
***
O último participante, que por sinal é o primeiro dos três (que essa história dos últimos serem os primeiros é no Reino dos Céus e aqui) dá pelo nome de Viriato.
Certo dia acordou (metaforicamente falando, assim como quem diz "viu uma luz") e deu consigo a pensar: «Olha ca ganda porra, tenho de participar no rali!»; «E porquê?» questionou a sua consciência bloguística; «Porque eu sou o Chefe!» sentenciou Viriato.
E sem mais delongas pôs a máquina dos preparativos em funcionamento. O único senão é que tudo isto aconteceu, a bem dizer, por alturas da consoada de 2006, já que até aí o Grande Líder andou ocupado com assuntos mais... digamos que natalícios.
Assim, quanto a veículos, nenhuma novidade: o lusitano e mui acarinhado UMM 4X4 2100cc de 1978 - «com esta porra passo a ferro todo o mouro que se me atravesse no caminho!», entusiasmou-se.
Privilégios de chefe, não teve dificuldades em ser aceite na comitiva, como também não as teve em reunir uma equipa de primeira água:
- Navegador - Sertório Hermínio, companheiro inseparável desde os tempos de infâncias, em que diambulavam por essas serranias fora de cajado em riste, varando e apedrejando todo o animal vivo que encontravam com gritos de «Morre sarraceno, mo
rre porco (ou coelho, perdiz ou capão) infiel»; quem se orientava como ele nas inóspitas montan
has não se enganaria na certa no deserto...
- Mecânico - Godofredo de Castelo Melhor, conhecido ferrador da ancestral vila e um dos últimos na arte de bem ferrar nas paragens do Riba Côa; todos os mecânciso que conhecia ou estava de férias ou eram alérgicos aos pólenes dos catos do des
erto, por isso... e o Gôdo sempre saberia mudar um pneusito, né?...
- Apoio - Para completar a sua equipa, Viriato reuniu ainda seu devotado dentista e confidente, Xavier Tira-Cáries, que para além de assegurar a sua saúde oral também providenciaria pelo abastecimento de víveres, combustível e demais necessidades; Urraca Mamadona, babysitter e puta, pessoa indispensável à satisfação das duas necessidades mais prementes do Chefe nesta altura (dispenso-me de as especificar).
Sem fazer a mínima do percurso, Viriato lá se juntou ao arraial montado na Capital, mesmo que para isso tivesse que ir perguntando «Ó faxa favore, sabe-me dizer adonde está a canalha toda da porra do Ráli?».
Pena foi logo à chegada à Praça do Império ter visto o seu dentista ser preso por andar a tentar demolir com uma broca o Centro Cultural de Belem.

Sem comentários: